A saudade que emana daqueles olhos é dolorosamente clara e concreta.
Da pra se ouvir o coração sapateando na garganta.
Mas não é só um tipo de saudade que atormenta.
É saudade do que acabou de acontecer,
do que aconteceu ontem, cinco anos atrás,
e até saudade do que ainda não veio.
E os "porquês" são tantos!
É como se tivesse os colocados numa xícara com café bem quente,
e bebido tudo num gole só.
Aqueles "porquês" fazem seu estomago doer.
As coisas no seu quarto e na sua cabeça
tem cheiro de ferrugem, de livro velho.
De madrugada, a lua escaldante canta um
blues absurdamente alto e egoísta.
A noite quer toda sua vida só pra ela, todos os seus pontos finais e interrogações, cujos tanto trabalho deu para construir.
E nem sequer o silêncio lhe distrai mais, nem ele,
que foi sempre tão companheiro e presente.
O que pode fazer agora é dançar de passo leve,
lento, sem ritmo, deslizando seu emaranhado de sentimentos pelo chão frio.
E assim, dos teus olhos se faz córrego, nos teus lábios se desenha a sorte, pra hoje, amanhã, e todas as vezes que a vida cobrar.

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