Toc Toc
Jornal
Café
Manteiga
Janela
Carpete
Poltrona
Solidão.
Seus dias começavam assim e terminavam... Bom, na verdade nunca terminavam.
Sua vida era uma sequência de noites e dias de insônias,
uma após a outra.
Ele ouvia suas canções preferidas de Chico Buarque, fumava seus intermináveis maços de cigarros amassados, tomava seus uísques, pensava em suicido e assim se sentia em um dos contos de Caio Fernando Abreu. Com uma pequena diferença:
Sua vida ninguém lia.
Tinha decorado cada ponto, cada mínimo detalhe da sua sala, da sua casa, do seu escafandro. Sabia de cor cada rachadura, cada mancha, cada defeito. Não tinha mais o que descobrir. A única coisa que lhe chamava a atenção era a presença inanimada, sem vida e sem alma, de um abajur de lava que havia comprado de uma loja qualquer quando visitará São Thomé das Letras. Aquele abajur, com aquele líquido que flutuava lá dentro, flutuava, iluminava e não parava nunca... Ia e vinha. Parecia que entrava e saia de algum buraco negro escondido dentro de sua
estrutura de metal.
Gostava de apagar todas as luzes da casa e deixar o lava acesa, a lava cor de pólen. Vermelha, tão vermelha que poderia até ter cheiro de sangue.
E gostava daquilo, gostava muito.
Ele preferiria ter se tornado um abajur de lava, vistoso e iluminado, do que um homem patético e caído. E nem ao menos sabia por que era assim. Ou enxergava de mais, ou enxergava de menos. Havia uma parede atrás da estante da TV que ele gostava muito. Gostava, pois havia escrito uma frase de sua autoria ali. Em um momento de transe e falta de papel, a parede foi sua primeira opção. Sua poesia: “Lento, de pulsar em pulsar, vem me buscar pra um passeio num mundo meu!” E ao lado o trecho de uma de suas canções favoritas: “Swimming in a fish bowl, year after year. Running over the same old ground, what have we found? The same old fears ...
Os mesmo velhos medos, ano após ano, o que encontramos?
Ele encontrou uma janela aberta, uma rua vazia, postes acesos. Não conseguia distinguir mais nada.
E o que veio depois disso?
Um corpo, seu corpo, caindo, caindo, caindo... Voando, voando, voando. Em disparada, de encontro ao solo, ao seu descanso.

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