quarta-feira, 13 de novembro de 2013

"O Mundo Aqui Dentro É Uma Loucura"


Certa vez li um livro chamado "O Mundo Lá Fora é uma Loucura". 
Me disseram que a situação do protagonista da história era a quase a mesma pela qual eu passava. Me identifiquei com o personagem, cujo não me recordo o nome, e a situação realmente era quase a mesma... Quase!
E na minha vida, eu mudaria esse título para "O Mundo Aqui Dentro é uma Loucura". Aqui dentro de mim, dentro da minha cabeça, dentro da minha casa.
Quero fazer esse relato não para me passar de coitada, para que tenham dó, pena de mim, ou só por poder dizer "hei, eu tenho problemas". Problemas todo mundo tem. O que eu procuro com isso é somente um desabafo. Gostaria que alguém algum dia lesse isso. Pode ser qualquer pessoa, não preciso nem conhece-lá, ela não precisa saber meu nome, quem eu sou, o que eu faço, não precisa ter compaixão por mim, pela minha história. História não, ESTÓRIA. Eu apenas gostaria de saber que alguém saiba como eu me sinto, o que se passa na minha cabeça e o que deixa de passar por ela. 
Sinto uma necessidade imensa de falar, de gritar isso pro mundo, de escrever na porta de um banheiro público, pixar numa parede, gritar a plenos pulmões em praça pública, ou apenas sentar e conversar com alguém. Sinto essa necessidade de ser ouvida, somente ouvida. Não exijo que me deem conselhos, que me deem soluções, só gostaria que me ouvissem. 
E porque eu simplesmente não sento e converso com algum amigo, algum parente, algum estranho? 
Por que não creio que mereçam ouvir isso, que precisem disso pra vida deles, que não são obrigados a me ouvirem. Sei que se eu parar para falar vai parecer lamentação, e não é isso que eu quero.
E o motivo, as causas dessa necessidade de desabafo?
Uma irmã com sério problemas psicológicos há três anos e que não aceita nenhum tipo de tratamento, um padrasto alcoólatra desde os 14 anos e viciado em drogas não sei desde quando, uma mãe que sofre diariamente com tudo isso há 18 anos (quando eles começaram a namorar e quando mais alguns dos problemas dela começaram) um sobrinho de 5 anos, prestes a fazer 6, que já presenciou vários ataques de histeria e loucura da mãe, e que não foram poucos e nem leves. Não são leves pra mim e pra minha mãe, imagine para uma criança. E é uma criança pela qual eu sinto uma enorme paixão, um amor realmente incondicional, seria capaz de qualquer coisa por ele, qualquer coisa. Tem também uma irmã mais velha que nunca foi ligada a nós, saiu cedo de casa. Casou há alguns anos, engravidou e no terceiro mês de gravidez simplesmente decidiu que nos queria fora da vida dela de todas as maneiras. Nos bloqueou em redes sociais para não vermos nem sequer fotos dela. Fomos inúmeras vezes até a portaria do prédio onde ela mora e ela se negou a nos receber. E tudo isso quando as coisas começaram a piorar aqui em casa. Resumindo essa história com a mais velha: fomos conhecer a filhinha dela somente quando ela tinha nove meses.
Fora uma família (tanto por parte de pai quanto por parte de mãe) com pessoas que nos viraram as costas. Nos julgaram, nos injuriaram, mas nunca apareceram, deram as caras pra oferecer alguma ajuda. E algumas até faziam coisas que só pioravam a situação. Nos afastamos de muitos deles. O que só nos fez bem no meio de todo o inferno pelo qual passávamos/passamos. 
Foram inúmeras brigas dentro de casa, brigas feias. Brigas extremamente violentas. Filha batendo na mãe. mãe batendo na filha, filha batendo na irmã (eu), irmã (eu) batendo na irmã com problemas psicológicos. A criança de 5 anos chorando. A criança aos 3 anos chorando com as cenas. A mãe da criança trancada no banheiro com uma faca na mão gritando que ia se matar. A mãe jogada no chão do corredor dos fundos chorando com o filho de 4 anos parado do lado olhando.
A irmã que derrubou o portão da garagem no chão porque tiveram que trancar ela pra fora porque ela estava totalmente descontrolada e violenta e seu filho estava trancado no quarto sozinho chorando. 
E depois pedindo desesperadamente aos berros que não queria que sua mãe fosse presa, já que sua tia teve que chamar a polícia porque não tinha mais como controlar a irmã. 
Depois a irmã correndo até o viaduto dizendo que ia se jogar, os filhos da vizinha da frente indo atrás dela.
A polícia não apareceu nesse dia, mas perdi as contas de quantas vezes ela bateu no portão de casa ou por minha mãe ter solicitado, ou por pedido dos vizinhos. Ambulância também. Umas três vezes no máximo. A casa é alugada, o dono chegou até pedir que saíssemos porque os vizinhos não nos aguentavam mais.
Ai tem o padrasto bêbado, que eu amo de paixão porque foi ele quem me criou desde que eu nasci, já que minha mãe começou a namora-lo quando ela estava grávida de 8 meses de mim. 
O padrasto que tem efizema pulmonar e respira só com 50% do pulmão e tem hepatite, e os médicos já disseram que não sabem como ele ainda esta vivo. Ele, que várias vezes já passou dias na rua vivendo como mendigo, vários dias bebâdo e drogado. Que várias vezes já ofendeu minha mãe no local de trabalho (negócio próprio da família) com xingamentos fortes, com gritos, um tapa na cara uma vez, e uma latinha de cerveja cheia arremessada em direção a cabeça dela. Ele, que se afunda cada dia mais, e isso é triste, ver uma das pessoas que você mais ama no mundo se afundando desse jeito, decaindo, morrendo dia após dias diante dos seus olhos. 
Ele, que agora esta internado numa clínica particular de contenção fora da cidade, porque ha um pouco mais de um mês atrás tomou um monte de remédios e tentou se jogar do décimo andar de um prédio. 
E a irmã que já ficou dois meses de cama, não levantava para tomar banho e nem para comer, tinha que ser carregada no colo, dois meses sem falar, chorava e só. Cheguei até esquecer de como era a voz dela. 
Uma irmã que passou um ano inteiro perseguindo a mim e a minha mãe com provocações, todos os dias, o dia inteiro, querendo arrumar briga.
Não podíamos ouvir uma música dentro de casa, dar um sorriso, uma risada, ter uma conversa ou um momento de privacidade, por que isso desencadeava uma série de brigas por que na cabeça dela estávamos fazendo e falando mal dela.
A criança que ficou esses dois meses sem ver a mãe. E depois, mais pra frente, mais um mês sem vê-lá, já que ela foi internada num clinica de recuperação pública aqui da cidade (que é um lixo), mas não tivemos outra escolha, já que em uma manhã de segunda feira ela decididamente pegou uma faca na mão para se matar.
Um padrasto que também foi internado nessa clínica, e passou os 20 dias descalços já que não entregaram nem sequer o chinelo pra ele usar, e apanhou dos outros internos lá dentro por mais de uma semana. Além dos problemas de saúde que ele já tinha, saiu de lá com pneumonia. 
E tem o pai também, que nunca ligou pra filhas, e que quando a filha estava doente nunca se deu o trabalho de visitá-la, ou de sequer ligar pra saber notícias.
E a mãe, que trabalha demais pra sustentar a família, que sofre todos os dias com a situação da filha, o descaso que a mais velha fez, com a vida degradante do marido que ela tanto amo, e com o sofrimento do netinho dela. 
E eu. Que não sabe mais o que sentir, que não sabe mais o que dizer, o que fazer. Que não consegue organizar um pensamento sequer na cabeça. Que desde quando tudo começou passou a agir o mais racionalmente possível pois sabia que, se se envolvesse emocionalmente não iria aguentar. E por causa disso, se tornou fria, cada dia mais fria, bloqueou muitos sentimentos, e agora já não se lembra mais como era antes. Não sabe mais se algum dia vai conseguir sair dessa casca e voltar a ser como era, ou pelo o menos um pouquinho só parecida. E tem também o fato de eu não me lembrar de um dia sequer na minha vida eu soube o que é autoestima, o que amor próprio, o que é sentir orgulho de se mesmo, não me lembrar de ter sentido orgulho de alguma coisa que eu fiz na vida. E sei também que eu errei muito, e como errei, e me martirizo todos os dias por causa disso, e me odeio cada dia mais por causa disso. Eu, que não tenho um talento sequer pra mostrar pras outras pessoas. Só defeitos eu sei que não sou, mas também as qualidades que tenho qualquer um pode ter, não é nada excepcional. Não tenho nada de especial. Não me acho bonita, não me acho uma boa pessoa, apenas cumpro com as minhas obrigações. 
E me sinto sufocada porque minha mãe só para pra falar comigo sobre trabalho, sobre problemas, pra fazer cobranças em relação ao meu futuro, cobranças sobre minhas obrigações com a casa, obrigações com o trabalho. E todas as vezes que eu tentei me desabafar ela disse que eu era uma mentirosa que fica criando falsos sentimentos pra encobrir verdades, diz que é tudo desculpa esfarrapada, discursinho besta. Disse até que sou doente. Eu só queria que ela fizesse comigo o que fez com a minha irmã: entrasse no meu quarta a tarde e só saísse anoitinha, ficasse todo esse tempo conversando comigo sobre mim, e acreditando em tudo que eu dissesse. Não a culpo por isso, tudo o que uma mãe quer é que seu filho tenha um futuro bom. E também a culpa é minha pois sempre passei essa imagem de "não precisa se preocupar comigo, eu sei me virar e pode contar comigo pro que der e vier". Ela tenta entender porque não estou correndo atrás do meu futuro, e acha que é tudo comodismo, vagabundice, preguiça. Mas a bem da verdade é que eu tenho medo, sei lá, tenho 18 anos, começando a vida agora. Tente imaginar como é começar a vida no meio dessa merda toda? Não me da vontade de encarar o mundo. Só de pensar que tenho uma vida inteira pela frente pra enfrentar diversos problemas que eu ainda não conheço, e de pensar que eu não sei quando esses vão acabar, e se é que vão acabar, me desanima por completo. Não consigo vislumbrar-me no futuro, sendo alguém na vida, tendo paz na vida. E também, não acredito na minha capacidade, não sei se algum dia eu sequer vou conseguir ser alguém na vida, realizar sozinhos, me solidificar profissionalmente e como pessoa também. Isso é covardia? É. Eu sou fraca? Sou. Mas não sei como mudar isso.
Também não me vejo casada, com filho, família formada. Tenho medo de ter filhos e passar por tudo isso de novo, só que pior, no papel de mãe. Não ia aguentar. Agora já não estou aguento mais, imagine como mãe. Não ia aguentar sofrer e ver meus filhos sofrendo, ou me abandonando. Dizem que quando você se torna mãe, toda sua força aumenta. Não sei se comigo seria assim e realmente não quero testar isso e descobrir que não, não me fortifiquei, continuo sendo a mesma covarde fraca de antes. 
Evitei ao máximo mostrar sofrimento dentro de casa. Chorei muito no trabalho, chorei muito na escola. Minha mãe, minha irmã, meu padrasto e meu sobrinho não precisam de mais uma pessoa chorando dentro de casa.
Confesso que teve dias em que eu quis me entregar: não levantar da cama, não comer, não tomar e banho. Eu só queria morrer.
E confesso que até hoje de vez em quando sinto uma imensa vontade de ser atropelada por um carro, por um caminhão, pegar alguma doença fatal, sofrer algum acidente. Sei lá, só morrer, não me matar, só morrer. 
Sou muito covarde pra cometer um suicídio. 
Só me sinto sufocada.
E também eu necessito urgentemente conhecer pessoas novas, novos lugares, me apaixonar, ter uma paixão na vida sabe, ter alguma coisa, qualquer coisa nova na vida. Mas não consigo nada disso porque estou sempre trabalhando todo fim de semana a noite no negócio da família, e faz tempo que minha mãe não me da folga. 
Trabalho lá desde os 13 anos. Não aproveitei nem metade do que minha adolescência exigia, e agora já estou entrando na faze adulta, e não sei quando eu terei tempo pra esses aproveitamentos. 
Sinceramente, me sinto um lixo, um enorme amontoado de lixo. Me sinto com sei lá, 170 anos. 
Queria um pouco de auto estima, um pouco de auto confiança. Entender pelo o menos um pouco de tudo que se passa na minha cabeça, no meu coração.
Não sei se tenho que sentir ódio, amor, compaixão, dó, pena, paciência, determinação, obrigação, gratidão, e nem por quem eu tenho que sentir. 
Eu perdi muito do que eu era. Todos que eu mais amo perderam muito do que eram.
É como aquela música diz: 
"De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa,
morna e ingênua que vai ficando no caminho,
que é escuro e frio mas também bonito porque é iluminado
pela beleza do que aconteceu há minutos atrás."
Na verdade, essa é a música que mais me descreve, ela inteirinha. 
É uma tristeza muito grande, uma confusão de sentimentos, uma solidão imensa, uma necessidade de colo, de abrigo, mas sem saber onde encontrar.
A falta de esperança é muito grande, e isso mata. Mata um pouquinho por dia, todos os dias.
Um desmoronamento completo de tudo em que eu acreditava, de tudo que eu vivia e me apoiava. "Quando eu fui ferido, vi tudo mudar das verdades que eu sabia. Só sobraram restos e eu não esqueci toda aquela paz que eu tinha. Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado, a meia noite a meia luz, pensando. Daria tudo por um modo de esquecer [...] Não estou bem certo se ainda vou sorrir sem um travo de amargura. Como ser mais livre, como ser capaz de enxergar um novo dia? [...] Daria tudo por meu mundo e nada mais."
Exatamente isso.
Não vou ser egoísta a ponto de acreditar que ninguém mais sente isso que eu sinto. Eu sei que tem!
Eu tento imaginar como minha mãe se sente, minha irmã e meu padrasto também. E isso me aniquila. Daria minha vida pra vê-los felizes novamente. Queria poder fazer alguma coisa que desse resultado, mas parace que estou amarrada, incapaz de me movimentar. E isso só faz crescer meu ódio por mim mesma. 
Queria que alguém lesse, alguém ouvisse. Mas por enquanto, isso fica só no "papel" e aqui dentro, dentro dessa loucura, dentro desse mundo do avesso em pleno meio dia da minha vida.
Acho que nunca fui tão sincera. Sem usar palavras bonitas, cults, difíceis, inteligentes, sem versos, sem sincronização das linhas, sem rimas.
Só botei pra fora. 
Agora são 3 horas e 52 minutos da madrugada de 14 de novembro de 2013.
Não sei quanto tempo vai demorar pra mudar um pouco disso (pra melhor, por favor). Talvez amanhã, daqui uma semana, ano que vem, daqui 10 anos, 20, 30, 50, ou, e por que não, nunca.
O certo é que "eu to vivendo, eu to tentando".