Parei em frente aquela porta entreaberta. Poucas luzes, pouca gente, música alta. Estava frio, mas não era com isso que eu me importava. Alguma coisa me incomodava grandiosamente. Tive um mal estar olhando pra aquelas mesas e cadeiras, sabia que já as tinha visto de algum modo. Talvez esparramadas, bagunçadas. Não sei. Tive vontade de entrar, então entrei. Lá dentro parecia mais frio do que do lado de fora. Acho que era a frieza humana que lá dentro reinava. Sabe quando alguma coisa saltita na garganta? Então, tava lá saltitando, quase saindo boca a fora. É que a cara das pessoas... Pessoas não, bonecos. Infláveis, de pano, de porcelana. Não interessa. O fato é que se poderia fazer qualquer personagem em qualquer um que ali estivesse. Eles eram tão calmos, despretensiosos, tão sem vida. Incomodei-me de novo. Tenho me incomodado em todos os lugares. Mas o que mais me incomoda sou eu. De mim sei que não posso fugir então essa inquietação eu assumo. Quis pedir um café, mas alguma coisa na falta de expressão do garçom me disse que o café viria frio, amargo, de anteontem, adormecido. Prolonguei minha estadia lá por mais uns minutos. Aí me dei o alívio de ir embora. Da porta pra fora, tive a certeza de que a coisa que me incomodava, coisa desconhecida, estava grandiosamente maior. Não consegui fechar os olhos pra dormir naquela quase madrugada. Já tinha tomado conhecimento demais dos bonecos. Suas faces petrificadas passaram a viajar na minha imaginação. Não sei, mas, de tão penosos, esses seres chegam a me dar medo. Rostos duros, falsos. Por isso me olhei no espelho e me dei a careta mais sincera e cheia de sentimentos que pude. Um suspiro de alívio apareceu. “Ainda sou eu!”

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